O bom é bom demais pra ser aqui

Foi um instantezinho só, bem curto e ligeiro.
O céu, pintado daquele azuldeinvernoensolaradonorio, era acolhedor; a jabuticabeira, fantástica, porque era bicolor, algumas partes tinham cor de dia e outras cor de noite; o jardim de tão quase secreto me era mágico. Toda essa perfeição embelezava o mundo como se fossem os deuses a desenhar felicidade. Era tudo lindo, lindo, tão lindo que não me tocava e desconcertava, porque estava bem ali, e eu muito aqui, tinha entre nós um abismo interminável.

A inquietação nunca foi uma grande amiga, mas agora já me parecia quieta, talvez tenha ficado surda, ou só me acustumado. Recostei no ombro da moça e, por um tempo, não pronunciamos uma palavra. O silêncio geralmente incomoda, criando um barulho vazio e que não diz nada, mas esse silêncio não criou nada mais que sua própria paz. Alguns minutos se passaram, ela lendo e eu ali, deitada. Não sei bem o quanto foi meu e o quanto foi dela esse feito, ou mesmo se foi um simples e gostoso acaso dentre os tantos mais. Estávamos as duas e o mundo recostados na grama, o mundo também esteve aqui, muito aqui, tão aqui que me envolveu, me abraçou e mesmo me embrincou, afagou meus desconcertos e inquietudes num acalanto de alma amiga. Num ombro que se fez quase irmão, fui parte do que desde sempre participo, senti o aqui e ali se tornando um só lugar, o que eu estava.

O silêncio logo se desfez por parte dela. Minha resposta saiu rápida, baixa, incerta, tinha medo de me mexer e desfazer aquele abraço. Esperei, fiquei muito parada, fechei os olhos, sim, estava tudo em seu lugar. O papo continuou, correu para outros temas e outras bocas. Junto com o papo, correu o tempo, que acabou com o dia.

O mundo desceu o abismo e me deixou ali, as emoções voltaram para o seus lugares fora de lugar, os pensamentos a correr desenfreados, deixando para traz a sanidade e a razão. Não sei, não mesmo, talvez nunca mais consiga sentir o mundo como em um banho bom de mar, cercando e carregando todo o meu eu em seus braços, cheio de beijos e carinho. Diante daquela perfeita harmonia e sintonia, senti se desfazer o medo de ser incompetente para vida, confesso, ainda agora sinto, bem ao lado dos amigos desconcerto e inquietação, mas sei como é não sentir. Sei também como é sentir que o bom é bom demais aqui mesmo, mesmo que por um instante.

2 comentários:

  1. Cá pra nós... a jabuticabeira estava linda mesmo.

    Acabei de curtir esse dia passado ainda mais por causa dessa prosa toda rosa! (:

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