Um menino acordou um dia e percebeu que tudo estava em câmera lenta. Acordou com a porta de seu quarto abrindo, ficou deitado, ainda meio confuso, esperando que sua mãe chegasse á sua cama. Esperou...
Pronto, ela chegou, falou-lhe delicada e lenta, lentamente. Não respondeu nada, achou ainda que estava sonhando. Ficou deitado ainda um tempo, a janela tinha-lhe prendido a atenção, a dança ritualística das árvores nas manhãs de outono estava fragmentada, parecia fora de ritmo.
Olhou pelo tempo que julgou bastante para perder a primeira aula. Levantou para reparar que o café, que sua mãe colocara para passar depois de acordá-lo, ainda estava passando. O tempo parara de correr.
Vestiu suas roupas, calçou seu tênis, ajeitou o cabelo, sentou-se na sala para esperar a mãe, que tomava ainda o café recém passado. Na sala dedicou-se a reparar as ondas. Sua crista era quase eterna, tão bonito. A onda não parecia fora da ritmo, na verdade, chamava pra dançar. Começou a adorar essa coisa de câmera lenta, ou ausência de tempo, podia até mesmo dormir um pouco mais antes da aula.
Preferiu não dormir não, ficou olhando as ondas, pensou em como seria vê-las mais de perto, observando a areia também. Mas sua mãe já se dirigia para sala, estava na hora de sair. O elevador demorou uma eternidade.
Na escola,cohilou a beça entre as aulas e não perdeu nada, leu seu livro quase todo, e, claro, as conversas, lentas, lentas, rediam alguns risinhos, escondidos para ninguém desconfiar. O melhor de tudo, durante as discussões polêmicas, que lhe eram favoritas, tinha bastante tempo para pensar, antever, reagir, tornou-se deliciosamente invensível.
Resolveu ir andando para casa, afinal de contas, tinha tempo. Era outono, o céu tava azul, azul, parou na praia. Realmente, a onda chegando na areia era lindo, um abraço entre dois amantes. Ficou, pensou, meditou, chegou em casa para o almoço.
Depois do almoço não tava com aquele sono usual, já tinha dormido bastante. Sabia que tinha que estudar, mas tinha tempo, resolveu ler. Leu, acabou o livro e tiveram início os pensamentos. Deu-se tempo para pensá-los, quem era ele para não se permitir o tempo que o Universo lhe dava.
Estudou o que tinha que ser estudado, acabou com o sol ainda despontando no céu. Resolveu assistir tv, fez um lanche, tomou um café...Teve sono de novo, dormiu. Acordou, o sol se punha, resolveu sair. Ligou para uns amigos, todos atolados com o estudo. Foi tomar uma cerveja sozinho. O dia ficou divertido de novo, o gás no copo o fez gargalhar algumas vezes, a cidade estava mais harmônica, menos falatório, menos carros, menos pessoas, ou pelo menos, mais espaço entre eles.
Voltou pra casa, jantou, e começou um novo livro. Essa coisa de ler, ler um pouco mais e ler, ainda, o restante que faltava, enchia-lhe o coração. Sentia falta desse hábito infreável de ler devorando, que era sempre interrompido pelo tempo. Quando estava nos finalmentes de seu livro, bateu o sono. Antes de dormir, pensou que amanhã não seria o mesmo, repensou o dia, divertiu-se de novo.
Acordou sozinho dessa vez, o sol ainda não tinha nascido, viu a hora. Faltavam três horas para ele ter que acordar, mas já tinha dormido tudo que precisava dormir. Preparou um café, voltou para o quarto, e seu dia foi igualmente maravilhoso. Dessa vez, foi ao cinema, viu uns três filmes. No dia seguinte, foi áquela praia lá do outro lado, no outro, ao museu. Ah, e seus devaneios, nasciam, cresciam, se renovavam, sem nenhuma necessidade de cessar. Eles simplemente fluiam, sem o tempo para interrompê-los.
Era já o quinto dia dessa estranha façanha, acordou sozinho de novo. Fez um café, ficou na sala, olhando o mar, parecia que fazia uma eternidade que não o via, e tomando o café. Acabou, ficou parado alimentando seus devaneios que o faziam sempre atrasado, mas que agora eram livres. Foram pensamentos o bastante para a mãe acordar. Estranhou a antecedência do filho, fez-lhe outro café, deixou-o só com sua mente.
A ausência do tempo conduziu-o a lugares dele mesmo que a falta de tempo nunca o tinha permitido. Quando viu a mãe sair do quarto já pronta para sair, correu, vestiu-se,calçou-se, penteou-se, chegou á porta junto a ela.
Na escola, as mesmas situações, mas agora menos divertidas. Acabou o livro que tinha começado na noite anterior, achou isso um saco, acabaram aqueles momentos aleatórios, preenchidos por especulações, por vontade, por saudades da voz do narrador, o livro que antes fora um amigo tornou-se só uma estórinha. Tentou dormir durante as aulas, não tinha sono. Sentia falta das conversas, das vozes, que demoravam tanto para chegar até ele, que chegavam fracas, vazias de sentido.Foi pra casa, almoçou, e encontrou seus devaneios de novo, agora no quarto.
Foi, foi, foi...sua mente estava em lugares inimagináveis, possivelmente inventados pelo ócio. Conheceu dúvidas e tristezas que estavam muito além do caminho que custumava percorrer, e algumas alegrias também, tudo era muito abstrato, e por não ter forma, parecia capaz de se moldar ao seu corpo, confundir-se com ele e com suas verdades. Viu alguns filmes, fez deveres.
No dia seguinte, acordou sozinho, cada vez mais cedo. O tempo parecia estar mais e mais devagar. Seus pensamenteos, faziam-se sentimentos, faziam dor, até a alegria era demais, atormantava-o. Dessa vez não ficou na sala vendo as ondas, foi ao mar. Não percebia o mundo, não sentia o vento, pouco ouvia as vozes, ou os barulhos de vida. Ficou lá, olhando, olhando, dançando, olhando. De repente parou, de tão lento fez-se imóvel.
Ficou ali, ficou, por um tempo imperceptivelmente incalculável. Deitou-se na pele do mar, fez-se imóvel também. Imóvel, imperceptivel, surdo, mudo, fez-se inexistente enquanto sem tempo.
Adorei amiga..faz refletir.
ResponderExcluir"A ausência do tempo conduziu-o a lugares dele mesmo que a falta de tempo nunca o tinha permitido."
ResponderExcluirlindo, lindo!!!
Maria